sábado, 24 de outubro de 2015

PERFIL DE MULLER

no sideral aeroporto de Vigo
Andrés e a súa familia matriarcal
senten soidades da astronauta 
Águeda viaxante no tempo

panos acenan a ausencia,
facas perfuran as sombras,
o tempo depura a independencia
da man de obra feminina

e Águeda asumiu a iniciativa
de traballar libremente
en calquera metrópole do planeta
despistando a morriña galega

(Domingo Gonzalez Cruz. Poesia peregrina. Il. Guidacci. Trad. para o galego, Gonzalo Armán. Rio de Janeiro: HP Ed./Xunta da Galiza, 2005. Programa de Estudos Galegos/UERJ.)

terça-feira, 2 de junho de 2015

RUI BARBOSA - POESIA BIOGRÁFICA

MADRUGADOR

O galo já cantou?
O leiteiro já passou?
O barbeiro já acordou?

Quem estará na biblioteca
às 5 horas da manhã
rosto lavado
bigode perfilado
devorando livros?

Um cupim estudioso?
Um mosquito ansioso?
Uma libélula letrada?
Um sapo no meio da sala
dizendo: - Fui escritor? Não Fui?

Psiu! É o Rui!

(Domingo Gonzalez Cruz - A Casa de Rui Cheia de Encantos. Edições Casa de Rui Barbosa. 1999.)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

ANTÔNIO TORRES E O NOBRE SEQUESTRADOR

Livro marcante sobre o corsário do rei Luis XIV, René Duguay de Trouin. Antônio Torres narra, neste romance, as aventuras daquele que "fez primeiro sequestro do Rio de Janeiro - o da própria cidade". Recomento a leitura.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A CASA DE RUI CHEIA DE ENCANTOS

POEMAS DO LIVRO: A CASA DE RUI CHEIA DE ENCANTOS 
(Domingo Gonzalez Cruz - Edições Casa de Rui Barbosa)

LEITURAS

Lia no bonde e na carruagem
lia no cinema e no teatro
lia no discurso e na conferência
lia as roseiras e os espinhos
lia as orquídeas e o silêncio
lia os quadros e as palavras
lia as cerâmicas e as pratarias
lia revistas e dicionários
lia livros e as entrelinhas
lia a sopa e as letrinhas
lia até para Lia
que vivia na cozinha?


APAIXONADO

Rui circulava pelo jardim
enroscando o olhar
nas curvas das roseiras
Será que ele procurava uma rosa
para o sobrenome Barbosa?


TEMPESTADE

chuvas viração rodopios
piam os pássaros
chuva emoção águas assovios
piam os pássaros
águas rodopiam
o barquinho de papel
águas assovios
no abricó pulam macacos?
ventanias solidão trovões portas e trincos
batem batem
e as crianças viram formigas
nos prédios dos formigueiros
chuvas inundação
os ovos do caracol
não se aquecem ao sol
ventos fugidios
agitam plantas aquáticas
águas assovios
trovões portas trincos e arrepios
tornam sombria 
a casinha no fundo do quintal
gritos alaridos
bruxas ou duendes?
ventos assovios
quem estará lá dentro?
o forno desativado
adeus pães bolos biscoitos e sonhos

HISTORINHA PARA NÃO ESQUECER

Era uma vez uma moça chamada Lia
Era outra vez mais uma moça chamada Judite
Foram escravas
Foram herdadas
Mas Rui não queria esse tipo de herança
Seria uma tatuagem torturante
Era mais uma vez outra moça chamada Judite
Era mais uma vez uma moça chamada Lia
Livres livres livres
Como o vento que vem do norte

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(Cenário poético: Casa de Rui Barbosa - Rua São Clemente, 134 - Botafogo - Rio de Janeiro)

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sábado, 10 de novembro de 2012

DRUMMOND 
 
RELEVANTE PROSA SOBRE POESIA

"Não há possibilidade de treinar em jornais escolares"? Um poeta consagrado dando dicas literárias por cartas a um jovem poeta. É o que se lê em Conversas sobre Poesia com Carlos Drummond de Andrade (Escrita Fina), livro lançado por Domingo Gonzalez Cruz, que ao interlocutor epistolar enviava textos para apreciação e teve a sorte de contar com a bússola certeira do itabirano. "O primeiro me parece um tanto panfletário. Não sou contra o panfleto, na ocasião que o reclama. A frio, porém, perde a eficácia". Um poeta experiente e nada professoral; um poeta jovem puxando papo com um autor imenso, sem ser inconveniente. Ganharam ambos" (O Trem Itabirano - 2012).



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"FAÇO TEATRO PORQUE NÃO CONSEGUIRIA FAZER OUTRA COISA"

Viviane Pereira formou-se atriz pela Escola Estadual de Teatro Martins Penna, em 2011. Seu desempenho no decorrer da peça "Orlando!" foi crescendo num ritmo intenso, o que estimulou muito a qualidade do trabalho teatral apresentado pelo elenco. "Orlando!" voltará ao palco Armando Costa (Rua 20 de abril, n.°  14 - Centro - RJ), em janeiro de 2012.

ENTRE NESSAS LINHAS - Agora que você se formou atriz, com a apresentação da peça "Orlando!" (inspirada no romance escrito por Virginia Woolf), quais são seus planos profissionais para 2012?

VIVIANE - Faço parte do grupo teatral 3 nós Cia de Teatro. Grupo este formado com outros atores do elenco de Orlando. Ricardo Rocha, Anna Luiza Mendes e Bárbara Abi-Rihan. Pretendemos em 2012 dar continuidade a pesquisa de teatro físico, imagético. Temos um esquete chamado Artigo 5.º e pretendemos continuar levando-o para alguns festivais e ainda proposta para encenação de outros textos. Pretendo ainda fazer mestrado em Artes Cênicas pela Unirio.

ENTRE NESSAS LINHAS - Você pretende trabalhar em novelas para a televisão brasileira, ou isso não é importante no seu trajeto  como artista?

VIVIANE - Estou começando a entender um conceito tão falado em teatro: O ato de Jogar, receber do outro. Quero continuar fazendo isso sempre. No momento não pretendo me dedicar a novelas, mas não descarto a possibilidade de fazê-las, desde que me permitam continuar jogando. O importante para mim é praticar. Minha vida é um jogo, e, mesmo não tendo platéia continuo jogando. Não faço teatro por exibicionismo, apesar daa grande exposição decorrente das apresentações, faço teatro porque não conseguiria viver fazendo outra coisa, ou não faria com tanto carinho e dedicação.

ENTRE NESSAS LINHAS - Trabalha com outra atividade profissional para manter seu amor pela arte?

VIVIANE - Sou formada em Economia e trabalho na parte operacional financeira de um curso de Inglês. Desde que cheguei ao Rio, em Junho de 2007, trabalho nesta empresa. Não posso negar que, acabo de certa forma, mantendo esta arte com o que eu ganho lá. Meu objetivo é poder viver de teatro, chega uma hora em que e preciso escolher, sair de cima do muro. Creio que minha hora chegou.

ENTRE NESSAS LINHAS - De acordo com o jornalista Helder Lima, "Orlando" é um livro que questiona a identidade humana. "O ser humano é alguém que é homem e mulher ao mesmo tempo". Qual é o seu ponto de vista sobre o assunto, levando em consideração a montagem teatral da qual você participou com tanto brilhantismo?

VIVIANE - "A mesma pessoa, só o sexo diferente". Esta frase é sucinta, mas abrange bem a nossa montagem que ao mostrar Orlando homem e mulher, além de extenuar as diferenças inerentes ao corpo humano, acentua que independentemente do sexo ele continua sendo a mesma criatura, com suas paixões desenfreadas, a solidão recorrente, um aventureiro. Homens e mulheres podem e são deveras iguais nas atitudes. Você não precisa ser mulher pra ser doce, delicada e não precisa ser homem para mostrar sua força.


VIRGINIA WOOLF E "ORLANDO!" SEM ROSTO...

O jornalista Helder Lima, no seu Blog Livros & Ideias (28/03/2011), registrou uma passagem importante na vida da escritora Wirginia Woolf:

 "Hoje faz 70 anos que a escritora Virginia Woolf morreu. Naquele fatídico 28 de março de 1941, ela se viu atormentada pela iminência de mais uma crise nervosa, e assim preferiu encher os bolsos de suas roupas com pedras e se afogar no rio Ouse, em Sussex, interior da Inglaterra."

 Helder, sensível à genialidade da escritora, continua mais adiante sua análise comemorativa:

 "O mais famoso livro de Virginia Woolf é "Orlando, uma biografia", publicado originalmente em 1928. O romance narra a trajetória, desde 1500, de um rapaz bonito e atraente, que pertencia à corte inglesa e vive mais de 300 anos. A certa altura, no entanto, servindo seu reino como embaixador na Turquia, Orlando tem um profundo sono durante dias e depois desperta como uma mulher.
Virginia dedica a obra a amiga e amante Victoria Sackville-West, que por ser mulher havia sido impedida de herdar um castelo que pertencera por séculos à sua família. Inspirada em fatos e pessoas reais, Virginia constrói assim uma crítica da sociedade inglesa, com manifestações de ironia e irreverência. O movimento feminista abraçou "Orlando" como uma obra em favor da igualdade dos sexos e até como alegoria da superioridade da mulher.
Mas o livro é mais do que isso. Não apenas funde os gêneros de narrativas do  romance, da biografia e do relato histórico, como revela uma aguda sensibilidade para colocar em questão a identidade humana. Na voz de Virginia Woolf guardada no livro, o ser humano é alguém que é homem e mulher ao mesmo tempo, uma perspectiva que pode dar muito o que pensar."

Penso no grupo de atores e atrizes que montaram em parceria com o diretor Flávio Souza, o texto teatral "Orlando!", adaptação livre do romance escrito por Virginia Woolf, na Escola Estadual de Teatro Martins Penna, situada nos arredores do bairro da Lapa, Rio de Janeiro.

Percebi no dia da estréia (dois de dezembro de 2011): atores emocionados e nervosos, bom gosto na cenografia, requinte na iluminação, e virtuosismo na interpretação desafiadora de cada personagem.

Existe uma estética especial depurada (cinestésica e espacial) nessa montagem, onde o conjunto não anula a interpretação de cada ator.

As carpideiras choronas, por exemplo, com seus sons estranhos (a encenação é cromática e extremamente sonora) apresentam forte grau de inventiva.

Até a duração da peça  (duas horas) colabora para a premeditada arrebentação de humor, drama, angústia, melancolia e suas incógnitas, tudo transformado em linguagem louca, ilusionista e mordaz.

Ouvi alguém sussurrando na platéia, como se estivesse dentro de um labirinto de imagens seculares:

- E eu sei lá o que é isso?

Mas ouvi também risos, silêncios e espantos no meio da noite dedicada à memória de Virginia Woolf, após 70 anos de ausência entre os mortais.

Não é muito comum ver tanto desejo de acertar no desempenho, entre diretores e atores em início de carreira, no que diz respeito ao processo criativo do produto teatral.

Pairava no trabalho daqueles jovens formandos e do diretor, a naturalidade com que todos aceitaram viver o processo para atingir o objetivo final, sem perder o entusiasmo (o que já é um bom exercício de convivência).

Quando menos se espera, os professores sufocam o desempenho dos atores nas escolas de teatro com técnicas formalistas ou naturalistas castradoras.

Ainda bem que existe poesia nas personagens nuas de "Orlando!", simbolizando a dualidade do erotismo universal existente no amor natural, decantado por Carlos Drummond de Andrade:

Quem ousará dizer que é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
Até desabrochar em puro grito
De orgasmo, num instante infinito?

                      (Amor - pois que é palavra essencial". Amor natural.)

Após uma hora de espetáculo, recursos do teatro de animação surgem na montagem e a dualidade intemporal do romance "Orlando" (homem e/ou mulher) torna-se plural na linguagem cênica, dando margem para os grandes momentos de metalinguagem teatral e ironia existencial.

Ficha  técnica da peça "Orlando!":

Governo do Estado do Rio de Janeiro/Secretaria de Ciência e Tecnologia.

FAETEC/Escola de teatro Martins Penna

Teatro Armando Costa.

Texto: "Orlando!"
Muito livremente inspirado em ORLANDO - uma biografia de Virginia Woolf, na obra literária de Marina Colasanti e outros autores e artistas.

Direção: Flávio Souza.

Uma criação compartilhada de:
André Mutran, Anna Luiza Mendes, Ayana Dias, Bárbara Abi-Rihan, Bernardo Zurk, Douglas Amaral, Geseni Rosa, Julio Zéza, Luciana Aguiar, Oziel Alexandre, Ricardo Rocha, Tânia Roessing, Teresa Cavalcante, Vanessa Dias, Vanessa Úrsula e Viviane Pereira.

Cenários e figurinos: Deniele Geammal - Direção musical: Charles Kahn - Preparação corporal: Roberto Lima - Iluminação: Renato Machado - Preparação para canto: Márcio Carvalho - Caracterização: Rogério Garcia - Preparação vocal: Monica Karl - Orientação de produção: Flavio Leandro.

Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna sob gestão de Roberto Lima.

Primeira escola de teatro da América Latina, criada em 1909. A primeira peça foi encenada em 1911.


                                                                     (Domingo Gonzalez Cruz)